Mensagem aos preconceitosos (Câncer do Mundo)

Sexta-feira, Julho 10, 2009


Amo o alvorecer dessa terra
Quando o sol nasce e reclama direitos
De reafirmar seu reinado
Dadivoso de vida

Amo quando a onda quebra ruidosa
Desfilando o brilho que rouba de pérolas
Vem convidar ao batismo
E à consagração do sal

Amo a liberdade do vento
A sua pressa de querer ir
Me despeço e sinto saudade
Do seu canto no pinheiral

Amo a quietude da noite
E o orvalho que beija o campo
Preciosa interseção dos dias
Compassando a linha do tempo

Amo um ser que por mim tem amor
Sua existência leve e definitiva
Que eu cuido raro e único
Como toda criação divina

Terça-feira, Julho 07, 2009

Mulher na feira


Coro dos feirantes

É escolher e provar,
Provar pra gostar,
Gostar e pagar,
Pagar pra levar.

Vamos lá, hoje tem feira,
Tem feira e é da boa
Pra patroa se fartar
Tudo fresco e bem cuidado
Você pode acreditar

Tem feijão carioquinha
Olha a pinha madurinha
Está doce pra danar
É provar e ficar freguesa,
Com certeza vai gostar

Quer tapioca no jantar?
A goma está de primeira
Vai primeiro na peneira
Depois vai para assar

É porque hoje tem feira,
Hoje tem feira e é da boa
Pra patroa se fartar
Tudo bonito e asseado
Você pode acreditar

Olha o tomate, minha senhora,
Não demora vai se acabar
Vermelhinho e sucolento
Um momento, vou embrulhar

Não se esqueça de levar
O coentro e o jerimum,
Bom na sopa com carne seca
Ou ensopado de goiamum

Vamos lá, cara freguesa
Leve logo a macaxeira,
Fica mole na panela
Desce macio na goela

Aproveite nossa feira,
Que é feira da boa,
É o colorido que alegra
E o sabor que alimenta,
A senhora vai gostar
Porque não experimenta?

A mulher

Se uma manga-rosa está madura
É porque sua casca tem cor,
Quando por fora está bela
Dentro, há de certo o sabor.
Ah, trivialidade de frutas
Cumprem suas sentenças
De serem belas e brutas.
Ah, trivialidade de comer
Satisfazer sabor e fome
Apreciar, deglutir, sorver.

Não sou trivial,
Não trouxe esse capacidade
De refletir o frescor sobre a pele,
Mas sou trivial,
Deixo-me ser dragada e sorvida
Para satisfazer vontades,
E despois de despida
Quem vê o que sou?

Tenho uma visão recorrente
Que me faz transpirar:
Caminho sobre areias
Com olhar fixo no horizonte
Uma linha que turva meus olhos
E que me seduz na nudez da areia
Um lençol de brancas dunas
Que bailam e cantam uníssonas.
Ó ventos que mudam sonhos,
Varram minhas lembranças
E as marcas do meu caminhar,
Beijem o suor do meu corpo
Conferem-me a certeza de não voltar.

Coro dos feirantes

É escolher e provar,
Provar pra gostar,
Gostar e pagar,
Pagar pra levar.

A mulher

Ó meu amor, porque não me resgata?
Não te vejo, não te ouço, pouco te sinto
A trivialidade de teus beijos me mata
Quero saber o que há debaixo da casca.
Ó meu amor, preciso de teus beijos sim,
Mas minha alma necessita mais de ti,
Pois o que tenho de você turva meus olhos,
Molha minha pele e atordoa meus sentidos,
Ó meu amor, necessito saber de ti
Onde estás? Onde estás, meu delírio?

Se acaso for crime querer saber do amor,
Renuncio qualquer sorte de defesa,
Qualquer sorte de juízo apaziguador
Que me restitua o sepulcro tedioso dos dias.
Vou condenada então, amando, infringindo
Reinvindicando cada vestígio concreto
De sua existência, meu amor.
A transgreção dos meus sentimentos
Bate à porta de teu silêncio inquietante,
Que se interpõe, constante, entre mim e ti.

Ai de ti, amor, que não és bruto tal frutas,
Que não uses vestimentas lustrosas e belas
Que me mostrem de forma irrefutável
O sabor contido, sem rasgar-te.

Coro dos freirantes

É escolher e provar,
Provar pra gostar,
Gostar e pagar,
Pagar pra levar.

Ô festa boa, é de manhã
Sol judiando o quengo
Patroa fazendo dengo
A gritaria, o afã
É de manhã, é de manhã.

Gente que sobe e desce a rua,
Do pastel ao peixe, é gente
Uns querendo frio,
Outros querendo quente,
Mas é uma festa de gente.

Tem do doce ao salgado,
Do bacalhau ao melado,
Da fruta-pão ao feijão,
Fica tudo amontoado,
Gostando da confusão.

É de manhã, e a festa é boa
Pra patroa se fartar,
Tudo fresco, vivo e belo
Você pode acreditar.

A mulher

Bom dia, quero levar
Manga-rosa e maracujá
O mais maduro, por favor,
Vou agradar o meu amor.

O feirante

Opa patroa, pode deixar
Agradar o amor
Faz bem ao coração,
Mas se não for indelicadeza,
Qual o nome do cidadão?

A mulher

Dizer não posso não,
É um segredo aqui guardado
O agrado fica a cargo do desejo,
Cumplicidade de um amor silenciado
Oferto o que não pode o beijo

O feirante

Mas de certo seu sentimento é sabido?
Pois como pode o amor existir
Sem mostrar-se, não é admitido

A mulher

A permissão vem do medo
E o que se sente, seja ilusão
Fico assim então, a ver e querer
O amor que não posso ter
Quero ler a alma do meu amor
Como ler a beleza de uma flôr,
Uma constatação simples
A maravilha exposta e nua,
Crua sedução do que há,
A representação do sentimento
Que não se nega, se dá.
E amando segue meu coração,
Quardando lágrimas e fé
Sendo só com minha paixão
Incompreendendo n'outro ser
Seu culto à solidão.


Sexta-feira, Julho 03, 2009

Não tive a sorte de ser inanimado
Existo quente, um ser malogrado
Que sente febre tal condenado
A padecer apaixonado

Regado a medo e encantamento
Meu alimento nutre torpor
Embriaga o pensamento
E reacender a dor

Farejo a felicidade das pedras
E delas a paz permanente
Ainda assim amantes do tempo
Fiéis a ele, eternamente

Quinta-feira, Julho 02, 2009

Falta-me a espontaniedade de sorrir
Quando ele vem, causa estranhesa
Fortaleza sem trancas
Guarda baixa,
Vulnerabilidade certa

Falta-me essa natureza singular,
Cortejar a felicidade
Como assim fazem as fotografias,
Estáticas faces contentes,
Esta me falta

Não sei o que há por trás
Dos sorrisos dos outros,
Se são esboços de um transe
Ou estado real de gozo

Só digo que não encontro o meu sorriso,
E quando ele vem me causa estranhesa
Porque de mim não é próprio
E a nada se propõe

Sexta-feira, Junho 26, 2009

Foi mais que só contato,
Tinha perfume de alma,
Textura de verdade,
Gosto de prazer

Foi mais que um olhar,
Tinha jeito de talismã
Perdido na areia,
Canto de sereia

Era a encarnação do mito
A fantasia ganhando vida,
Uma concepção divina
Que gera sem pecado

Não foi apenas resistir
Foi mutilar o coração,
O êxtase como convite,
Cuja resposta foi não.

Terça-feira, Junho 23, 2009

Para Léo

Penso nas artimanhas de Deus
Seus ardis, Seus efeitos
Penso nos Seus artifícios
Nos Seus modos, Seus projetos
Quando só passamos desatentos
Enrustindo a mágoa e sendo sós,
Penso no que Ele trama
Para nos guardar

Então vejo que nos guarda em anjos,
Seres feitos para amar
Criaturas vestidas de carne e osso
Sempre atentos, dispostos, presentes

Penso nisso aqui comigo,
Que Ele está perto sempre
Vigilante em nosso caminho
Dando-nos palavra, conforto, abrigo
Dando-nos Sua guarda divina
Na divina forma de um amigo

Segunda-feira, Junho 01, 2009

Quando ele chegou
Ela já o esperava
Chegou antes para perfumar
Destravou as primeiras portas
Deixou a luz entrar
Consertou coisas quebradas
Foi cuidando do lugar
Sabia que não demorava
Seu tão desejado par

Esperou, é verdade
E esperaria o que fosse preciso
Se enfeitou de simplicidade
Para seu amado precioso

Ainda disseram ser perigoso
Poderia ele nunca chegar
Mesmo assim ela se entregou
Foram dias e dias de sonhar
Investiu seus desejos
Estava pronta para o encontrar

E ele chegou com toda sua força
Unindo sentimentos dispersos
Fez sorrir aquela moça
Que o esperava de braços abertos

E dessa união de beldades
O prazer tomou um novo sentido
Quando o amor conheceu a amizade

Quinta-feira, Maio 28, 2009

Junho já mostra seus folguedos
Lenha que queima em Gêmeos
Ano após ano, somando-me dias

Ai, já são muitos, talvez o bastante

Vou e ciclo a vida em silêncio
Mesa posta em pratos e garfos,
Lugares vazios, eu só

Sempre há pratos e garfos,
Cheiro de café e canto de pássaro
Chiado de chinelo e ducha de chuveiro,
Um mundo inteiro se repete

Sempre há o beijo de amor,
A despedida e a espera,
Perguntas de respostas sabidas
A rotina doce e desejada

Nesse vai e vem
Trilho sulcos fundos
Vinco a alma em regatos secos
Caminhos certeiros das lágrimas
Leito inequívoco da dor,
Por onde correm as lembranças
Que jorram da quietude

É por aí que vão,
Massantemente

Sábado, Maio 23, 2009


Não luto por nada
Luto por mim
Quieto luto sozinho
Tanto lúdico assim

Sou peão branco
Rodando dados negros
Somados e deduzidos
Resulto em gestos

Sinais de fumaça
De amorfo ser
Que trago comigo
Difícil conter

E golpeio o meu
Firo e reviro
Condeno e perdou
Secundo e primo

De batalha em batalha
Nessa eterna guerra
Brinco de sorrisos
A vida inteira

Terça-feira, Maio 19, 2009


Quero parir um homem feito
Um ser terminado e ereto
Um filho das minhas entranhas
Sujo de mim
E marcado com meus sinais

Quero um rebento que tenha lastro
Sem rastro de vileza
Arrimo de minha própria dor
Um filho que vingue sua raça
Que honre a carcaça do pai

Quero abraçá-lo e deixá-lo ir
Pisar relva e terra virgens
Vai com um beijo meu
Cria de sonhos e amor pagão,
Era meu, já não é mais

Sexta-feira, Maio 08, 2009

Sumo de mim

Vou fazer um altar para Sócrates
E outro para Platão
Talvez a sabedoria venha pela oração
Vou aprender aramaico
Pra conhecer Jesus
Quero rezar ao pé da letra,
Poetar ao pé da cruz,
Quero saber da verdade,
Tirar dela tudo que seja jus
Ô Cristo, que caminho é esse?
Ninguém entende nada, é tudo torto
Se é pra amar o próximo, porque tanto alvoroço?
Há quem papa a popa,
E há quem papa o caroço

Ô Sócrates, eu tenho questionado a vida
E ela não vale a pena ser vivida,
Vou cravar uns pregos nas mãos
E vestir um manto branco,
Dizer coisa senis,
E provocar a rosa dos santos

Talvez assim alguém preste atenção em mim.

Quarta-feira, Abril 01, 2009

Mudo, espero

Lembro do primeiro golpe da cavadeira
Cova rasa de plantar fruteira
Sepultando tenra muda oliveira
(era só esperar o tempo)

Meu amor violento era pressa
Sanha de ver frutificar
Não há desejo que se messa
Nessa ira de ver passar

Ladrilhava folha à folha
O domo da oliveira
Como pincel pingava bolha
E orvalhava a primavera

Era assim meu olhar:
Úmido de orgulho,
Sereno de esperar.

Domingo, Maio 11, 2008

Esferas

Eu e um sol no horizonte que passa...
passou
Deito e meus olhos varrem o negrume
Orbes como brilhos de olhos de feras
Esferas que de muito longe lumem
Sentinelas no imenso vazio
Mergulho com elas no silêncio
Espreitam meus passos no fio
Errar, errar
Não há outra ordem
Equilíbrio delicado
Cabeça-Coração
Errar, errar
E sob a abóboda fronteiriça
O particular
Frações de areia aderem em mim
Como desertores do seu todo
Como salvador eu fosse
Limpo a pele para que voltem
E eu giro para marcar limites
O limiar do que sou eu
Girar, girar
Não há outro movimento
Efeito trasladado
Ir-Voltar
Girar, girar
E tudo são evidências em arcos
Parcelas do todo
O alvorecer oposto ao crepúsculo
Minhas únicas verdades de observador
O resto é devaneio e especulação
Vou rotacionar para descobrir
Preciso ir para conhecer
Não adianta só ouvir falar
Voltar, voltar
Não há outra razão
Uma chance é pouco
Errar-Acertar
Voltar, voltar

Quarta-feira, Abril 30, 2008

.


Era um fim de tarde
Eu não sei,
O alaranjar da cidade
Felicidade, eu pensei,
Amar, eterna novidade

Busquei palavras completas
Cheias de verdade
Calei idéias dispersas
Nada inteiro como tu
Prazer nu em calmaria
Alegria misteriosa
Que turva a razão fria,
Não pede nada em troca
Vivaz melancolia de ser feliz,
Pois o prazer é doce e manso,
Não cabe na desatinada euforia
A nobreza de seu matiz

Era novo o entardecer
Quando amei
E a felicidade tinha cor,
Luz de olhos, eu pensei,
Foi amor, é o que sei

Basta que me beijes
Para que o chão seja sólido,
Que os espaços tomem forma
E que os sons tenham sentido,
Por isso a magia de teu estar
Quando tu trazes a paz
E o cair do sol não é o fim,
Ademais do breu vem o silêncio
E a escuridão que tinge estrelas,
Nele repouso meus ouvidos
Ora acalentados pelo teu coração

Quarta-feira, Fevereiro 13, 2008

Coração magoado

Meu café já esfriou
Esqueço até quem sou
Vou perder a hora
Do trabalho
Valho pouco, meu senhor,
Pagam pouco o meu dobrado
E o meu coração
Está magoado
Por razão do dissabor
Gasto sapato atarantado
Como feijão doce
Bebo leite salgado
Meu amigo me parou
Pra saber se estou adoentado
Viu a barba por fazer
E o sujeito dessarrumado
Mas não se importe, seu doutor,
Ainda não estou acabado
É só meu coração
Que está magoado
Pus Expedito no aparador
Vela azul de cada lado
Reza forte pra pedir
Ao santo tão afamado
Uma graça ou o que for,
Um remédio pra o amor,
Pois meu coração
Está magoado

figura: http://wonderful_love.blog.simplesnet.pt/archive/021725.html

Sábado, Fevereiro 09, 2008

No batente

No batente se recosta e, sono
Embora humano equivale à lixo
Tal bicho que revira a sobra
Serragem e pó de mundana obra

Sol à pino vem coroar
Rês sem trono, a pietá
Em roto manto ocultará
A fome perene, olvidar

Sua malquista realidade
Draga seiva na indiferença
Vassalos em tensa aliança
Núpcias de ódio e ganância

Torpor de pedra e passos
Jornada dolor de delírios
Padece ignoto no passeio
Sem pão, nome ou brios

Gente que parece estorvo
Se aninham entre os cães
Irmanam afugentando o frio
No batente, todas as manhãs

Segunda-feira, Janeiro 28, 2008

Angústias


Arroz branco refogado
Provo e sinto sal,
Mal percebo amargo dedo,
Que cedo ou tarde
Regurgito o dito:
O que não mata, engorda
E na borda dos sentidos
Silentes estão meus ais,
Tais venenos endêmicos
Vão cevando as angústias
Nutrizes da alma

figura: http://www.acores.net/blogger/view.php?id=12220



Sexta-feira, Janeiro 25, 2008

Abrolhar



...depois conheci o amor.
Ele veio e eclodiu vinhas no peito
Como prometesse frutos,
Perfumado e lindo,
Mas nunca vingou.
E presenteado com tais mimos,
Iludi-me com a esperança,
Cuidando que seria minha guia,
Pois ela faz abrolhar sonhos
Em mares de sombra e fantasia.
figura: bp0.blogger.com/.../0QKuj0ZKfV0/s400/Ilha.jpg

Quarta-feira, Janeiro 23, 2008

Encontro das águas



Quando o Potengi desaguar no Tietê,
Vou construir um barco de cana-caiana,
Vou navegar nesse leito alargado,
Vou verdejar o cinza sob a bruma,
Vou cantar meu verso misturado,
Vou fazer plantio na margem.
Vai brotar pé de caju entre os ramos de acácias,
Vai brotar a carnaúba no pé de jequitibá.
“Vamo” ver jangada de vela branca deslizar no espelho d’água,
Ver pescador puxar na tarrafa lagosta graúda para “nóis” comer,
Vou fazer sushi de pescada na margem do Tietê.
Quando o Potengi desaguar no Tietê,
Vai trazer o mangue verde, o caranguejo e as caiçaras.
Ah, vou esticar minhas pernas na proa do meu barco,
Vou marejar meus olhos vendo as searas das margens desse rio misturado,
Vou esperar o tempo de brotar por toda a cidade as flores da felicidade
Nos ramos das cerejeiras.

Domingo, Janeiro 13, 2008

Às portas de Hela


Foi quando a alvura do tempo
Cingira as têmporas do trovador,
Que Hela, fria em seu assento,
Roubou-lhe da face, seu rubor

O cantor, em olhos resignados,
Bateu às portas da filha de Loki
Sem pomos da vida acumulados,
Sem conhecer o amor ou a sorte

Obstante, sagaz indagou a Morte:
"Notório é o peso de sua idade
E admiro que ainda não note
O que condiciona a felicidade"

E a desdita alma antes de mergulhar
Nas águas negras da eternidade
Voltou à Hela para perguntar:
"Eterna, quem é essa deidade?"

Disse: "sofrimento recai aos lúcidos,
Enquanto alegria incide sobre poucos,
Pois felicidade é inerente aos estúpidos,
Servindo aos alucinados e aos loucos"

Sábado, Janeiro 12, 2008

O mensageiro


Sobre as porcelanas e os cristais
Repousava o repasto do burguês
Quando atentou,
Com manjar pausado em prata,
O alarido que veio da praça

Correu e à janela veio,
Guardando que não enlouquecera,
Posto que ao longe viu que descera
O Anjo Gabriel sobre o passeio

Minaram às ruas cães e gatos,
Que não eram mais que o populacho,
Que ajuntados à eles o burguês, o poeta
E o vigário, davam glórias aos céus
Tão bem-vindo mensageiro
E da celeuma que pisava o chão
Bradou a voz do pastor:
"Deixem-me falar primeiro,
Por ser eu obreiro de Nosso Senhor"

A turba se calou, mas nem povo nem pastor
Se manifestou, pois a voz primaz que soou,
Foi a voz que veio do céu, foi o canto
Do Anjo Gabriel:
"Desatem os nós das gravatas para que sejam livres
E ouçam: o tempo que os portões do Éden
Se abrirão está próximo e as paisagens
Do que está além serão a glória de homens de valor,
Cuidem para que possam atravessar
E deixar para trás a vida e a dor"

O poeta garboso logo se adiantou:
"Se aos céus cabem o mérito dos que tem valor,
Aqui estou e posso ter passagem, posto que
Meu canto é eloqüente e sou vitimado de amor"
E interveio Gabriel:
"Uma vez só ti direi caro poeta,
Que ao céu ainda não és merecedor,
Pois tua eloqüência poucos consola,
Muitos não compreendem tua obra
Teu canto não alcança os que o coração imola"

Então o burguês, lembrando-se de suas esmolas,
Pôs a mão no coração e ao anjo pediu atenção:
"Já que sou caridoso, deixa então que venha
Adiantar minha passagem nos arcos desse portão"
Mirou-o Gabriel em seus olhos:
"Sete vezes setenta é tua riqueza maior
Que tua caridade, cântaros de ouro e prata
Não ti trarão a imortalidade,
Tu ages como cão que enterra o osso,
Que mesmo saciado, aos olhos dos outros
Escondes o que tu mesmo não suportou"

E seguro de sua missão, o vigário pronunciou:
"Já que é chegada a hora do alvorecer divino,
Penso que é hora de cruzar os pórticos do além,
Uma vez que sacramentei o pão e o vinho
Gozarei o esplendor dourado dos rios do Éden"
E o anjo pede paciência ao pastor:
"Não te enganas, bom pastor, não há brilho de riquezas,
Pois a única luz que orna a face do Paraíso
Emana dos olhos dos justos, não há ouro nem jóias
Profusos em tua igreja"

Silenciaram todos na audiência,
Quando o anjo assim pronunciou:
"Que dêem passagem, sim, aos humildes,
Aos loucos e às crianças, pois os portões
Do Paraíso cabem apenas ao toque
Dos que tem a sublime virtude
Ou a inocência"

Sexta-feira, Janeiro 11, 2008

Purificação


Impuros são meus pensamentos
E olhos frívolos que te tiram
A roupa

Em pele nua, bela sem ornamentos,
Que perfuma lençóis e molha
A boca

Que sejas, em ato e dolo, a purificação
Piedosa dos meus pecados,
E me cega

Sela com beijos esse vil coração
Que erra na vida, em sonhos
Navega

Me entorpece com hálito de menta,
Veste-se como deusa das manhãs
Cada aurora

Cuida do meu corpo e alimenta
A alma que será tua a partir
De agora

figura:http://meuslivros.weblog.com.pt/arquivo/2006/08/minhas_mulheres

Segunda-feira, Janeiro 07, 2008

Peneirando lembranças


Venha que agora me encontro
Com joelhos feridos
Nesse aluvião

Relembro, momento ou outro,
Amores que se foram,
Reais ou não

Momentos intensos ou pueris,
Cada um com seu peso
E seu valor

Ao chegar, atenta que não deveis
Parar minhas mãos calejadas
Desse labor,

Pois ainda há muito entulho
Para peneirar dos sedimentos
Dos anos

Apartando o ouro do pedregulho,
O que reluz dentre o cascalho
Que ajuntamos

O temporal


Eram trovões que soavam trombetas,
Meu amor teve medo em ver o céu
Ruborizar

Lá, cintilavam estrelas e cometas,
Assisti o horizonte violáceo lamber
Ondas no mar

Encheram-se as areias e as praças
E em todos, o olhar de temor
Ante tal beleza

O firmamento ornado em toda graça
E muitos profetizando a hora
Da tristeza

Eu disse: não chore amor, vê a luz,
Sente o amor que perfuma
Pelo ar

Sente meu coração, que ora traduz
Em versos ináudíveis o prazer
De te amar

Olha para o céu e ver sem temor
O meu amor que negas ser
De verdade
Orei aos anjos, atendeu o Senhor,
Que agora derramam flores sobre
Toda cidade

figura: populo.weblog.com.pt/arquivo/aurora_boreal_1.jpg

Sexta-feira, Janeiro 04, 2008

Abandonados

Quando violentaram a menina
Eles não empunharam espadas
Para salvá-la

Muitos morrem ali na esquina
De mãos dadas com a fome,
Vela soprada

E vieram à Benazir, clamor e tiro,
Estampido e morte, mas eles não
Ergueram escudos

Pai, mãe e filhos, paz e abrigo,
Até um menino perder o juízo,
Invasão e luto

E outros tiveram iguais sentenças:
Kennedy, Lennon, Voitila, Luther King,
Fulanos e beltranos

É porque muitos não morrem apenas,
O mundo os mata, e os anjos assistem
Cândidos e serenos

Quinta-feira, Janeiro 03, 2008

Regresso do calor


A face do mundo calou
Em silêncio de pétalas
De gêlo

Um sossego sem calor
Que nem anjo ou homem
Desejaria tê-lo

E inerte, permaneço na janela
Como a pintura de um condenado
À liberdade

Miro veredas, espero Primavera
Um colorido qualquer que mate
A saudade

Quando eu sorria e meu corpo
Era quente, não via que já
Sabia amar

Vago nos dias, triste e absorto
Olhando pela moldura, esperando
Ela voltar

Sexta-feira, Dezembro 28, 2007

Prazer

Prazer é a simples maciez de pele
O encontro de vontades em mão dupla
Um cheiro que arrepia e molha boca
O fôlego perdido em beijos
Que desarruma cabelos

Mas é também o sossego do sono
O aroma de café e pães quentes
Um bilhete no aparador do espelho
Com palavras de amor repetidas
Nunca suficientes e incompletas

É o orgasmo que vai além dos suores
Versa em instantes e detalhes
Prolongando gozo em nuances de amor
Sensações as quais só se permitem
Os que realmente sabem ter prazer






Segunda-feira, Dezembro 24, 2007

Tons de cinza


Ninguém vê os olhos da felicidade
Impunimente
Não é possível amar, sem nunca
Sentir saudade
A alegria cobra um preço muito caro
Por sua régia presença
É como descobrir os tons de cinza
Da verdade
E preferir a profusão de cores
Que cabem às ilusões
Aprofundar-se em sentimentos mais puros
Requer grande dose de sacrifícios,
Haja vista, os que preferem
A superficialidade prazeirosa da ignorância

Quinta-feira, Dezembro 20, 2007

A virtude

Digo que não sei
Onde esconde-se o tesouro da alma,
- Porque há um tesouro,
Onde pousa, não sei

Disseram-me para procura-lo
No repouso dos colos dos santos,
E ao templo eu fui, mas não vi
A luz do ouro cegou meus olhos

Apontaram-o para os livros,
E eu os li,
Deslizei pelos pensamentos,
Varri labirintos,
Me perdi

Então encontrei o amor,
E eu amei,
Revolvi lençóis e sentimentos
Construi muralhas
E logo estava preso

Mas onde vou encontrar as moedas virtuosas?
Se amo sem ter fé,
Se rogo por ser louco,
E enlouqueço por saber,
Que elas estão perdidas em algum lugar
De um fosso sem fundo

Segunda-feira, Dezembro 17, 2007

Veios


É preciso fundir o ouro
Pois o burguês está triste

É preciso lapidar a jóia
Pra restituir o brilho de seus olhos

Temo que não haverá ouro e pedras o bastante
Para aplacar tanta dor

Pois os veios de ouro e pedras
Não são férteis tais os veios de amor

Sexta-feira, Dezembro 14, 2007

Eu quero a simplicidade


As coisas que eu quero são simples
A maciez de uma cama e lençóis limpos
Uma cortina que dança com o vento
Ou uma chuva de verão sob os campos

Quero o conforto de mãe, seu colo
O afago que traz o sono e a paz
Olvidar o sangue que jorra em dolo
Mais uma vida inocente que se desfaz

Quero uma garrafa de vinho, meu torpor
Não precisar de Deus nem de seus anjos
Imaginar uma vida boa e todo seu olor
Dançar ao sabor das cítaras e banjos

Quero a simplicidade dos crisântemos
Andar nu sem vergonha do meu-ser
Dividir com todos tudo que temos
Ficar inteiro em ser, sem ter

Domingo, Dezembro 09, 2007

O ramo


A brisa trouxe a chuva
E a novidade bateu na janela
- umidade e temperança

Vitrais encheram-se de luzes e sons
Cristais refrataram o brilho d'água
- luminescência e leveza

No meio do estrume brotou um ramo
Do podre nasceu o verde novo
- eclodir e abrolhar

E da minha boca sem pudor
Tu fazes brotar palavras de amor
- verter e transmutar

(figura: Jennifer Nowzaradan - Tree Seedhttp://idilium.blogspot.com/2007/05/supervida.html)

Sexta-feira, Dezembro 07, 2007

Poetar (para Sylvia Plath)


Vejo teus versos passarem
Como fantasmas em procissão
Ao som de um requiém

Fico poeta assim
Sorvendo de sua dor
Como se fosse para mim

Poetar é um onanismo intelectual
E tal como o outro,
O prazer está em imaginar

Quinta-feira, Dezembro 06, 2007

A medida certa das coisas


Tudo em sua certa medida
Diferencia o bem do mal
Se não vem chuva, fome
Se vem demais, temporal

Se o vento não sopra, calmaria
Deriva silêncio aos ouvidos
Se as nuvens bradam, vendaval
Beleza e poder reunidos

Abranda a dor e cura o mau
Na certa medida, o remédio
Em outra mais, veneno fatal

Uma tênue linha também divisa
O que há entre o amor e o ódio
Mutando o amante em louco total

Quarta-feira, Dezembro 05, 2007

O menino

Ô mãe, me dá o peito
E colo farto, acarinha
Berro quando fico só
Bato pé, faço beiço

Sou menino amarelo,
Magrelo, pé e chinelo
Olhar sem direção
Bala, sinal, contramão

Ô mãe, não chora não
Quando sonho cessa a fome
Vejo anjos e verdes montes
Amigos que me dão a mão

Sou eu mãe, o menino
Que reclama teu abraço
A delicadeza de teu amor
A segurança de teu regaço

(figura de Pavel Nikolayevich)

Segunda-feira, Dezembro 03, 2007

Duo


Tentei riscar uma canção de solidão
Em bemóis de poesia amarga e seca
Procurei palavras de tristeza
Mas só a alegria estava acesa

Duas chamas em comunhão,
Duo de amor e desejos
Amor feito à quatro mãos
Tons e semi-tons do coração

Tu, somente tu serás gêmea de mim
Furtivas e esqueces que sou só
Enches os espaços e lugares meus
Transmuta o eu em nós

Vinde a mim alma irmã, sou teu
Vinde musicar as palavras singulares
Velhas, estéreis e amargas de fel
Vertendo prazeres unitários em pares

No templo de nosso lar dobram sinos
Alegorias, os risos, a fé ou que for
Vou assim musicando sentimentos nossos
E que sigamos em eterno duo, meu amor

(figura: Irene Sheri)

Sábado, Dezembro 01, 2007

Vagas de luz (para Virgínia Woolf)

Vaga de mar quebra na areia
Vagarosamente canta sereia
Hiatos que rompem soantes
Sons,
Silêncio,
Sons...crescentes

Bolha de sabão, pois...lavadeira
Perfeita simetria do nada
Se forma, flutua e, nada
Mais bolha,
Mais limpa,
Mais lava

Mais ainda etérea alma
Vagando tal marola n'água
Às vezes vil mundana vaga,
Às vezes tenra luz parda

Em frestas de telhas, furtivo sol
Cortando as sombras tal navalha
Incide luz,
Sombra vaga,
Sobre olhos do poeta

Quinta-feira, Novembro 29, 2007

Luzes e Sombras


Meu sono é mar refratário de pensamentos
Uma inquietude de luzes e sombras tantas
Tal condenados no frio de seus tormentos
Para os quais não darei sopas nem mantas

São de toda sorte meus melhores companheiros
Fustigam no negrume da noite esse poeta malogrado
Aprazando a claridade como deuses zombeteiros
Iluminando veredas díspares, rumos tramados

Jogatina de verdades e ilusões amancebadas
Notívocas criaturas doutrinando a loucura
Cerceiam minha paz e sanidade acalentadas
Cortando-me e cosendo-me nessa tortura

Terça-feira, Novembro 27, 2007

Poesia banal

Não faço canto de novidade
Pois canto o que vem no peito
Amor e tristeza fazem-se saudade
Sentimentos banais nesse feito

Se a lua nova é escuridão
Cantarei odes a sua beleza
Poesia é instrumento da paixão
Simplicidade, força e leveza

É o que graça na pena do poeta
A cantilena da natureza e do amor
Verdade sem mentira não é completa
Não há nada de novo no palco da dor

E é ruminando a beleza das coisas
Que a poesia germina suas vinhas
Pois amor é fecundo e banal tal rosas
Que germina, perfuma e definha

Amor bruto


Sendo bruta a pedra
E ainda assim revela
Aos olhos do artesão
O tanto que é bela

A dureza e a forma
Em natureza da gema
Requer cuidado e zelo
Assim como um poema

E meu amor é bruto
Pedra rota sem par
Entrego-te completo
Lapida e faz-me amar

Segunda-feira, Novembro 26, 2007

Sina negra


Era negra a carga da nau
Porão de ratos e tristeza
Sina e cruz, grilhões e pau
A morte cruzando o mar
Adoiá, Iemanjá
Adoiá

Revira o azul, minha mãe
Leva-me p'ro teu reino
Naufraga meu destino
Antes do porto
Rogo, quero estar morto

Pois passa o tempo, minha mãe
É só sina, é formigueiro
Sou enxada, favela e cela
Quero ser teu marinheiro
Adoiá, Iemanjá
Adoiá


Quinta-feira, Novembro 22, 2007

Ei moço

Ei moço, você não está morto

Há sol ademais da porta

Dinheiro é que pouco importa

Só um pouco pra não ficar torto

Já comeu hoje o seu mingau?

Vixi, não diga não, isso é mau

Vai fazendo verso, é seu ritual

Se tocasse viola, fazia lual

Ei moço, tu é branco ou preto?

Daqui não dá pra ver seu beiço

Mijada fora se faz desde o berço

- Minha cara é essa, não sei com quem pareço


E tá bravo porque motivo?

Já limpou merda de pinico?

Homem, se ria dessa desdita

Um dia ela há de ser bendita


Segunda-feira, Novembro 19, 2007

Ambivalências

Estava sozinho e fragilizado da última batalha
A cabeça aturdida e o coração cheio de vontade
Os quereres e os deveres eram gumes, navalhas
Chacras e sentidos expostos à mentira e verdade

Fui amparado por belas ninfas de luz
Que fecharam as feridas e saciaram o coração
Uma bruxuleava na luxúria que seduz
A outra era o afago da razão

Duas belas donas cheirando alecrim
Não eram belas por si sós, mas por mim

A bela sedutora deu-me vinho tinto
Encheu meu peito de alegria e prazer
Convidou-em ao amor eterno nesse rito
Jurou o gozo dos tempos sem fenecer

A cândida razão abrandou meu peito
Trouxe-me a paz das horas sãs
Nem agonia, nem afã nesse feito
Não prometou ouro, nem riquezas vãs

Duas etérias verdades na mesma estrada
A materialização da minha loucura velada

A guerra ainda distava de terminar
Vindouros tempos de paz alvoraram no horizonte
Qualquer caminho era possível de semear
Todas as veredas levavam-me a barca de Caronte

Minhas belas guardiãs restauraram o guerreiro
Semearam duas paixões distintas e conflitantes
Reclamaram meu amor e meus arreios
Deram-em possibilidades de vidas excludentes

Mas continuo nesse caminho perene de verdades múltiplas
Na solidão dos insensatos, pois as deixei sozinhas
Embora as veja ainda pelo caminho, minhas belas ninfas
Seduzindo-me com suas próprias verdades e mentiras

Sábado, Novembro 17, 2007

Viço e pujança


Quero aproveitar as primeiras horas da manhã

Enquanto ainda existem viço e pujança

Ver as águas de rios correrem, mansas

Sem pressa de chegar ao mar, sem afã


De todas as minhas certezas, acredito em uma só

O ar que respiro agora que me mantem vivo, e só

Não há mais nada p'ra acreditar, esperar ou lembrar

O que é real não se recorda, nem almeja, se admira


É de manhã que os pássaros soam melhor

E a canção abençoa o cantante.


Vou cantando assim no alvorecer da vida

Esperando, sem acreditar muito, num entardecer bonito.

Terça-feira, Outubro 23, 2007

Coisa de Deus

Já era noite quando os ventos da tempestade sopraram nesse lugar
Levantaram o pó da estrada
Uivaram nas frestas das janelas

Levou os terços às mãos e gente ao altar

Era coisa de Deus
Coisa de admirar

Já não se sabia se era o negro da noite
Ou a tempestade já estava de boca aberta
Foi só no primeiro estrondo que deu p'ra acreditar
Quando um lampejo iluminou o céu lá p'ros lados de lá

Era coisa de Deus
Coisa de admirar

Eram a sede a fome que estavam p'ra se acabar
Ó meu Deus que coisa linda quando está p'ra chuviscar
Dá p'ra ouvir a Caatinga chorando de soluçar
Louvando as lágrimas do céu que acabaram de chegar

Era coisa de Deus
Coisa de admirar

Eu era bicho besta contando o relampiar
Vendo faisca cortar o céu como rojão de São João
Faiscando os olhos de alegria e admiração
Encantado com a chuva que caiu nesse lugar

Ô meu Deus que coisa linda
Que coisa de admirar

Sexta-feira, Outubro 19, 2007

Clamor

O mangue dessas partes
Verdeja o rio que enche o mar
A manga-rosa é doce como espada
Na mão do anjo que dançou no ar

E é rosa-manga o pôr-do-sol dessas partes
Que encantou o criador do Príncipe
Que encanta qualquer visitante
Dessa vila que virou metrópole

São alvas as velas dessas partes
Como as asas da garça branca
Sete dias de pesca no mar
São sete dias de cera no altar

Misericórdia ao explorador dessas partes
Deixem as dunas sacudirem no vento
Arranharam o céu já o bastante
Parcimônia e zelo enquanto há tempo

Terça-feira, Setembro 25, 2007

Bolero do Milênio






A ordem brada em megahertz,
Via satélite e megabytes
Ofusca nas ruas, persegue-me nas manchetes.
É no sumo da laranja
Que consumo meu pecado
E esse fato consumado
Vai aturdindo o transeunte
Ele, um pobre displicente
Eu, um doido relutante
Mas na ordem ninguém mexe
Não adianta reclamar
Vale mais matar de fome
Do que desordenar
Esta tudo direitinho
Três p'ra lá, nenhum p'ra cá
(Ô bolero fraquinho)
No descompasso dessa ordem
Vamos morrendo aos pouquinhos
.

Água e Sal



Gotas de suor correm pelo meu rosto, porque desejo
As gotas rolam, pois desejo
Desejo transpirar e transpiro
Desejo desejar e desejo
De certo sou senhor do meu desejo
Que transpira pela pele em gotas
E as gotas juntas encharcam o corpo do senhor dos desejos.
Transpiro por meu arbítrio e livre choro quando desejo,
Pois minhas lágrimas e meu suor são produtos legítimos de mim, são meus
Traduzem a química da dor, do cansaço, da alegria e do medo
Traduzem em água e sal tudo que sou
São meus
Sou eu.

Sexta-feira, Agosto 31, 2007

Tempo de plantar, tempo de colher








Quero me libertar dos sabores ácidos de minha boca,
Parar de regogitar palavras,
Ruminar os medos.
Quero despir-me da aspereza que cobre minhas vergonhas,
Tomar banho de água pura e doce,
Escrever o último poema e selar o mármore.
Assisto as almas que vagam nas ruas e procuro estar com elas em todas as direções,
Mas minha vaidade ainda aprisiona meus pés.
Passo, então, a desejar que o tempo passe.
Agonizo afogado na ansiedade,
Escancarando a boca para matar a sede que não morre nunca.
Estou erigindo do meu corpo o templo,
Sem ornamentos de ouro ou prata, sem santos,
De portar abertas ao vento e ao passo do tempo,
Repleto de simplicidade como crisântemos brancos.
E essa morada procura agora seu Har-Magedon,
O eterno fim desde o começo,
O princípio da morte desde o nascer,
Nutrindo a alma com a seiva dos pensamentos alheios,
Para ter coragem quando chegar a hora.
Encontrei nas palavras do filho de Davi
Refúgio aos meus pensamentos,
Que traduz com sabedoria a vaidade humana,
"pois não há nada de novo debaixo do sol,
e tudo é vento que passa."

Flores da Saudade










As flores estavam sozinhas na varanda,
Esperando por você, como eu.
O tempo passou e as flores murcharam,
Secaram de amor, como eu.
Viajaram para o mundo das flores,
Cercado pelos muros altos da saudade
E esperam.
Quando você voltar,
Não esqueça de regar de beijos,
A última flor que restou.

Quinta-feira, Julho 12, 2007

Sob a bruma paulistana




"Viver não é apenasContemplar o mundo do alto do penhasco.É mergulhar no vazio,É admirar a beleza do horizonte durante a quedaE se comprazer com a incerteza,Antes que o fundo certamente alcance."

Nesse livro de poemas convido você à descobrir seus medos... por trás das brumas de seu coração.

Clique no link para acessar direto o site.

Domingo, Junho 19, 2005

À toa

Ando à toa na rua,
Estou inteiro na tua.
Saudade dói de sentir

Chove então nos meus olhos,
Faróis de carros distorcem,
As lembranças que vêm me ferir

Sinta,
Muito mais que um segundo,
Muito mais que o mundo.

Deixa,
Abraçar seu abraço,
Alma, corpo e espaço

Se chove, então deixa chover.

Vejo a cidade em espelhos
Um reflexo perfeito
Contra o avesso de tudo que vi

A cada esquina procuro
Encharcado e mudo
Correr do passado, fugir

Atravesso a rua depressa,
Por favor não me peça:
De te nunca vou esquecer.

Estou só e a cidade,
Me mostrando a verdade:
Se chove, então deixa chover.

Quinta-feira, Junho 02, 2005

Um rio sinuoso

Foi então, de certa maneira, que me perguntaram:
"De onde vens rio sinuoso ?"

E falei: como responder se não navegares na minha história ?

A montante de minhas águas encontrarás minha nascente:
Obscura, incerta e frágil.
As lágrimas de uma mãe me fizeram ganhar volume
E fui descendo o leito do meu destino.

Ainda rasas, mas claras, minhas águas atravessaram matas.
E elas, as águas, transformaram em verde vivo as folhas secas que
Caíam do Outono de muitos olhos.
- matavam a sede de uma vaga felicidade.

Mas cresci e aí veio a corredeira bravia.
O leito do meu destino era rochoso e traiçoeiro.
Chocando-se contra as pedras deste leito, minhas águas
Se feriam e eu sangrava.

A lei do inevitável me conduzia sempre a descer esse leito,
E cruzei as duras pedras.

Muitos provaram de minhas águas,
E quase ninguém conseguiu perceber o sabor
Daquelas águas insípidas.

Continuei descendo meu destino e
Encontrei nesse curso uma enorme garganta:
Era o salto para o novo. E eu caí.
(tive medo, mas eu caí)

Uma longa queda com um final incerto.
Descobri, depois da queda, que havia um lindo vale.
Esse vale de pradarias e estepes verdes com o frescor
Do orvalho das manhãs sagradas.

Então pude entender:
Vim do incerto, do escuro, da dúvida.
Hoje corro sinuoso na planície do amor e
Viajo de encontro a outras incertezas,
Sonhando com a certeza do mar.

Segunda-feira, Março 28, 2005

Cristal de sal

Meus sonhos são como um cristal de sal nesse fim de mundo.
- Sou de brisa e de sol - sou potiguar.

Atei meus sonhos nas asas de uma gaivota,
E eles foram com ela procurar por outro mar.

Num vôo solitário errei e mirei o horizonte escuro,
Às vezes rubro, às vezes azul e às vezes claro,
Mas nunca próximo, nunca raro.

Soltando das asas do pássaro, o cristal de sal caiu em águas rasas,
Que a brisa e o sol dragaram.
E o resto do sonho ficou seco, translúcido e árido como todos os
Outros na mesma salina.

Segunda-feira, Março 21, 2005

Outra dor

E essa fragilidade que não passa?
Dor visceral, dor animal, dor que quase mata.
Fins de verão em dias quentes e claros
Perdidos na enfermidade.
Dor colossal, sem igual.

De que é feito o homem que pensa,
Que trabalha, que ora e perde a fé?
- É feito de vísceras.
Dor física, desmedida, maldita.

São só vísceras fétidas,
Entrelaçadas e ruidosas tal serpentes
Do inferno.

Tal como disse o professor: o homem é podre em vida.
Comprovo isto na dor, dor, dor, dias em dor.

Vísceras podres, podes derrubar
A mão do obreiro,
Até podes ofuscar a fé do crente,
Mas jamais poderás calar
A boca do poeta.

Terça-feira, Março 15, 2005

Um poeta em busca do sonho

Escrevo porque sinto,
sinto porque vivo,
vivo porque sonho

e sonho com as palavras que gostaria de viver e sentir.

Quinta-feira, Março 03, 2005

Carta de Remo

Porque choras mulher?
Não sabes que o esplendor de tua alma
Ilumina os caminhos de tuas crias

Amamentaste a cria tua e da outra
Tal loba de Roma em fúria e doçura
Dividiste o pão de tua casa
Aceitaste o filho do rio da vida

Mar de amor, deserto de egoísmo
Liberta-te dos grilhões do pesado zelo materno
Tu és mãe e filha
Assim como Lourdes agora choras

Ria-te, alegra-te de tua obra
Vive e se compraz
Com o viver dos que são seus

Quarta-feira, Março 02, 2005

O verso

Com quantas letras se faz uma poesia?
A beleza do verso nasce do que sentimos?
O que estou sentindo não é belo, é triste
E sinto forte
Um sentimento consoante
Não se expressa
Vogal muda de mim mesmo

Queria fazer um verso,
Mas não sei quantas letras usar
Certamente muitas
E nenhuma delas dirá a verdade
Nem todas juntas seriam capazes
De expressar meu medo

Quantas e quais letras sou eu?

Arrebatado

Você me levou rápido ao céu
A sua existência nem parecia concreta
Ser feliz passou a ser um estado permanente
As virtudes da alma humana afloravam por sua pele
Todos os dias
Mas num desses dias você me arrebatou do céu
Me trouxe de volta à realidade de pouca beleza,
Mas verdadeira
Você é humano como eu,
Erra como eu
E eu nem percebia

Segunda-feira, Fevereiro 21, 2005

Tormento

Rasgo o tempo com arado veloz
Rogo a chuva dos sonhos
Nos sulcos do passado que vivi
Semeei um futuro atroz

Sementes de desejo cultivei
Na vala não brotou quimeras
Germinou negras heras
Sorvo o veneno que sonhei

Entorpeço o pensamento errante
Desejo na carne queima flamejante
Os sulcos da terra volto a abrir

Meu desejo é meu próprio algoz
No cordão do tempo de múltiplos nós
Prendo-me e deixo-me ferir