
Sobre as porcelanas e os cristais
Repousava o repasto do burguês
Quando atentou,
Com manjar pausado em prata,
O alarido que veio da praça
Correu e à janela veio,
Guardando que não enlouquecera,
Posto que ao longe viu que descera
O Anjo Gabriel sobre o passeio
Minaram às ruas cães e gatos,
Que não eram mais que o populacho,
Que ajuntados à eles o burguês, o poeta
E o vigário, davam glórias aos céus
Tão bem-vindo mensageiro
E da celeuma que pisava o chão
Bradou a voz do pastor:
"Deixem-me falar primeiro,
Por ser eu obreiro de Nosso Senhor"
A turba se calou, mas nem povo nem pastor
Se manifestou, pois a voz primaz que soou,
Foi a voz que veio do céu, foi o canto
Do Anjo Gabriel:
"Desatem os nós das gravatas para que sejam livres
E ouçam: o tempo que os portões do Éden
Se abrirão está próximo e as paisagens
Do que está além serão a glória de homens de valor,
Cuidem para que possam atravessar
E deixar para trás a vida e a dor"
O poeta garboso logo se adiantou:
"Se aos céus cabem o mérito dos que tem valor,
Aqui estou e posso ter passagem, posto que
Meu canto é eloqüente e sou vitimado de amor"
E interveio Gabriel:
"Uma vez só ti direi caro poeta,
Que ao céu ainda não és merecedor,
Pois tua eloqüência poucos consola,
Muitos não compreendem tua obra
Teu canto não alcança os que o coração imola"
Então o burguês, lembrando-se de suas esmolas,
Pôs a mão no coração e ao anjo pediu atenção:
"Já que sou caridoso, deixa então que venha
Adiantar minha passagem nos arcos desse portão"
Mirou-o Gabriel em seus olhos:
"Sete vezes setenta é tua riqueza maior
Que tua caridade, cântaros de ouro e prata
Não ti trarão a imortalidade,
Tu ages como cão que enterra o osso,
Que mesmo saciado, aos olhos dos outros
Escondes o que tu mesmo não suportou"
E seguro de sua missão, o vigário pronunciou:
"Já que é chegada a hora do alvorecer divino,
Penso que é hora de cruzar os pórticos do além,
Uma vez que sacramentei o pão e o vinho
Gozarei o esplendor dourado dos rios do Éden"
E o anjo pede paciência ao pastor:
"Não te enganas, bom pastor, não há brilho de riquezas,
Pois a única luz que orna a face do Paraíso
Emana dos olhos dos justos, não há ouro nem jóias
Profusos em tua igreja"
Silenciaram todos na audiência,
Quando o anjo assim pronunciou:
"Que dêem passagem, sim, aos humildes,
Aos loucos e às crianças, pois os portões
Do Paraíso cabem apenas ao toque
Dos que tem a sublime virtude
Ou a inocência"